Vida: acaso ou projeto?

Por Rafael de Lima

Uma das características mais marcantes do ser humano é a sua sede em questionar. A busca em tentar entender os “porquês” da vida é algo tão imanente ao homem quanto o é a sua capacidade de amar, odiar, perdoar, etc.

Essa capacidade de reflexão acerca das questões da vida é o que torna a existência humana tão interessante e ao mesmo tempo tão inquietante! Refletir a vida é o que nos faz sermos, de fato, humanos. Lembremo-nos a máxima de René Descartes: “Penso, logo existo” (DESCARTES, 2001, p. 38) [1].

Neste contexto, uma das mais relevantes indagações que, por vezes, surge é: existe propósito na vida ou somos produtos do mero acaso? Ou, lembrando Leibniz:

“Por que existe algo em vez do nada?” (LEIBNIZ apud CRAIG, 2011, p. 59) [2].

O universo, o planeta terra, os seres humanos… a vida em geral, fazem parte de algum projeto ou são resultado de um simples acidente? Para onde as evidências apontam?

O problema em torno de a vida possuir ou não algum propósito tem sido tema de largo embate, principalmente entre cristãos[3] e ateus. Como se sabe os cristãos concebem a vida como sendo algo planejado, dotado de propósito e arquitetado pelo Criador. Por outro lado os defensores do ateísmo rejeitam a ideia de que a vida tenha sido planejada, afirmando que tudo resultou unicamente do acaso. De fato, a negativa de que exista algum propósito na vida é também uma negativa de que exista um Criador, e vice versa.

Antes de tudo, meditemos no parecer dado por C.S. Lewis acerca de tais questões:

Se o sistema solar veio a existir devido a uma colisão acidental, então, o aparecimento da vida orgânica neste planeta também foi acidental, e toda a evolução do homem foi acidental também. Se este é o caso, todos os nossos pensamentos presentes são meros acidentes – acidentes criados pelos movimentos dos átomos. E isto é válido tanto para os pensamentos dos materialistas e astrônomos como para qualquer outra pessoa. Mas, se os seus pensamentos – isto é, do materialista e do astrônomo – são meramente produtos acidentais, porque deveríamos crer que eles são verdadeiros? Eu não vejo razão para crer que um acidente possa dar a explicação correta do porquê de todos os demais acidentes (LEWIS apud LOURENÇO, 2007, p. 36) [4].

Diante disto, pensemos um pouco acerca da existência do universo e a partir desta reflexão concluamos com lógica. Vejamos o que propõe o seguinte silogismo que tem sido largamente utilizado por William Lane Craig batizado por ele de “Argumento Cosmológico Kalam” [5]:

  1. Tudo o que começa a existir tem uma causa.
  2. O universo começou a existir.
  3. Logo, o universo tem uma causa.

A primeira premissa é impossível de ser negada, pois afirmar que algo veio a existir sem haver qualquer causa é o mesmo que dizer que algo veio a existir a partir do nada, e isso é impossível.

“Uma lei absoluta da ciência e da lógica diz que ex nihilo nihil fit, que quer dizer, a partir do nada, nada procede. O nada não pode produzir coisa alguma” (SPROUL, 2010, p. 52) [6].

Perceba que o argumento acima não pode ser aplicado a Deus, através da astuciosa pergunta: “Então, qual é a causa de Deus?” O argumento afirma que tudo o que começa a existir tem uma causa. Deus, por outro lado, é eterno e não causado.

Acerca da segunda premissa, muitos poderiam alegar que o universo seja eterno. De fato, durante muito tempo se pensou que esta era uma possibilidade válida, todavia, a concepção que prevalece atualmente entre os cientistas é que o mesmo não é eterno, e o seu início se deu no famoso Big Bang ocorrido entre 10 e 15 bilhões de anos atrás.

Basicamente o polêmico modelo do Big Bang diz que o universo físico inteiro – toda matéria e energia, mesmo as quatro dimensões do espaço e do tempo – surgiu de uma explosão ocorrida a partir de um estado de densidade, temperatura e pressão infinitos, ou quase infinitos. O universo se expandiu a partir de um volume muito menor do que o ponto no fim desta frase, e continua a se expandir (ROSS apud FERREIRA; MYATT, 2007, p. 255) [7].

Apresentadas as duas premissas e suas defesas, chegamos à conclusão do silogismo. Vejamos a maneira notável com que William Craig infere seu argumento:

Portanto, a causa do universo deve ser uma causa transcendente que esteja além do universo. Essa causa tem de ser ela mesma não causada […] Deve transcender o tempo e o espaço, uma vez que foi ela quem criou ambos. Logo deve ser imaterial e não física. E deve ser inimaginavelmente poderosa, uma vez que criou toda a matéria e energia. Por fim, deve ser um ser pessoal [8][…] (CRAIG, 2011, p. 109) [9].

Existe apenas um ser que se encaixa na descrição acima: Deus. Como já afirmado anteriormente, a negativa de que exista um Criador é também uma negativa de que exista algum propósito na vida. Da mesma forma a prova da existência de um Criador é a prova da existência de um sentido para a vida. De fato, fomos feitos para o louvor da glória de Deus. Este é o grande propósito da nossa existência: engrandecer a Deus e fazê-lo conhecido!

“Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas” (Ap 4:11 – ACF [10])

Notas

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[1] DESCARTES, René. Discurso do método. Tradução Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes: 2001.

[2] CRAIG, William L. Em Guarda: defenda a fé cristã com razão e precisão. São Paulo: Vida Nova, 2011.

[3] Adotei a expressão “cristão” como definição generalizada dos que creem na criação do homem, literalmente, como retratado no Gênesis, rejeitando assim a possibilidade de ter havido uma macro evolução coordenada por Deus, como tem sido proposto pela teoria da evolução teísta.

[4] LOURENÇO, Adauto. Como Tudo Começou: Uma introdução ao Criacionismo. São Paulo: Editora Fiel, 2007.

[5] CRAIG, William L. Op., cit., p. 81.

[6] SPROUL, R. C. Verdades essenciais da fé cristã. 1º caderno. 3ª ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.

[7] FRANKLIN, Ferreira; MYATT, Allan. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2007.

[8] Acerca da pessoalidade desta primeira causa, Craig argumenta que esta seria originada pela própria natureza do efeito gerado, pois a origem de um efeito com um começo é uma causa sem começo. O início do universo foi o efeito de uma causa primeira, esta causa não pode ter tido um começo para sua existência ou qualquer causa anterior. Ela simplesmente existiu imutavelmente sem começo e em um tempo finito passado conduziu à existência o universo.

Diante disto surge o seguinte problema: esta primeira causa seria eterna e o efeito que ela produziu não é eterno, tendo o início de sua existência em algum tempo finito atrás. Como isto seria possível, visto que se as condições suficientes para o efeito são eternas, então o efeito não deveria ser também eterno? Como é possível um evento inicial vir a existir se a causa deste evento existe de forma eterna e imutável?

Para Craig a única forma de solucionar este dilema é afirmando que a causa para o começo do universo é um agente pessoal que livremente deliberou criar um universo no tempo.

Para maiores detalhes, conferir: CRAIG, William L. O novo ateísmo e cinco argumentos para a existência de Deus, [2010]. Tradução Eliel Vieira. Disponível em: <http://elielvieira.net/2010/12/14/o-novo-ateismo-e-os-argumentos-para-a-existencia-de-deus/>. Acesso em: 04 fev. 2012.

[9] CRAIG, William L. Op., cit., p. 109.

[10] A versão utilizada neste artigo é a Almeida Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original (ACF) publicada pela Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

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